Vinhas velhas

Vinhas velhas

Há vinhas velhas péssimas e há vinhas velhas óptimas! Tal como há vinhos péssimos e óptimos, feitos de uvas de vinhas velhas! Então, valerá a pena a distinção dum vinho por ser duma vinha velha e mencioná-lo no rótulo? Vale.

Ter num copo um bom vinho duma vinha velha é ter uma combinação única e irrepetível em cada vindima em que a complexidade é o seu carácter distintivo. Complexidade que vem da diversidade e da heterogeneidade das uvas que estão na sua base, tanto de castas como de diferentes maturações. Vinhos que são produtos de um field blend que os faz ter estruturas e texturas que podem e devem surpreender pela positiva, sobretudo se o trabalho perito de enólogo na adega modelou os taninos e deixou bem espertos os espíritos para um prolongado fim de boca de grande prazer. Um bom vinho duma vinha velha deve ser um suprassumo – embora nem todos o consigam!

Tem havido uma grande disparidade de definição de critérios para “classificar” uma vinha velha, a começar pelo da sua idade. Uns advogam 35, outros 80, outros 100, outros um outro qualquer número de anos, ainda por cima variáveis conforme os países e regiões! Do que nos tem sido dado perceber, fruto de muitos anos a provar “vinhos de lavrador” em pequenas adegas recônditas abastecidas por uvas de vinhas de gerações, cuidadas apenas nas horas vagas dos outros trabalhos agrícolas, de cepas retorcidas no chão sem aramados nem esteios, é possível ser-se surpreendido por autênticas grandes pingas aí geradas quase ao acaso. De que castas? Uma Babel de sinonímias! De quantos anos? “Já do tempo dos meus avós, fui repondo as que secaram…”

Ora, há um ou mais pontos em comum entre estas vinhas velhas e as que, um pouco por todo o lado, existem nas quintas familiares ou de empresas: são vinhas de fim de ciclo das videiras ou, pelo menos, em declínio da sua produção e da sua pujança vegetativa, plantas com grande maturidade e baixa produtividade, menos cachos e menores, habitualmente em grande densidade de plantação e com castas tão diversas que chegam a bem mais duma meia centena numa mesma parcela. Mesmo que (prática louvável dalgumas quintas) se vão fazendo reposições da mesma videira cujo clone é conservado em vaso ou num campo de conservação ex-situ, a maioria das plantas da parcela estará nas condições descritas, pelo que as qualidades de cada bago multiplicada pela variedade de castas, dará um mosto forçosamente diferente do obtido numa vinha pujante, jovem ou adulta e em plena produção: daí os vinhos de grandes e surpreendentes aromas, profundidade, complexidade e magníficos fins de boca que um enólogo com expertise consegue na adega a partir do mosto das uvas duma vinha velha. Um excelente enólogo me dizia um dia, provando nós uns “vinhas velhas” a que vigiava a evolução, que era o que lhe dava mais sentido de realização conseguir, o de fazer para a empresa para que trabalhava um vinho digno desse nome no rótulo, honesto para o comprador, se possível inesquecível para quem o provasse e bebesse!

Por isso, a questão da qualidade dos bagos e da variedade e heterogeneidade numa vinha cujo tempo áureo de produção já passou é mais importante do que o valor absoluto de anos de idade das suas cepas. Poder-se-á arranjar um algoritmo fácil para classificar uma vinha de velha em que os factores idade média das cepas, número de plantas, número de castas, e o que mais se quiser pertinente seja tido em linha de conta. Mas haverá que complementar isso com outra coisa para que o vinho possa ser “vinhas velhas”: uma prova do vinho que assegure as características expectáveis – e as surpreendentes – para quem o consumir. Porque assim se assegurará a sua excelência e o seu valor e se garantirá uma remuneração justa no seu preço ao produtor, essencial para que perdurem as vinhas velhas e não esmoreça a willing to pay de quem o quiser comprar.   

 

Manuel Cardoso

Consultor

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